Sim, há uma alternativa ao capitalismo: a Mondragón mostra o caminho

- Este artigo apareceu originalmente no site da The Guardian. -

Por que nos é dito, que um sistema falido, que cria grande desigualdade, é nossa única opção? Uma incrível cooperativa espanhola é a prova viva do contrário.

Não Há Alternativa (NHA) ao capitalismo?  [Nota do tradutor: There is no alternative (TINA, “não há alternativa” em português) era um slogan político comumente atribuído a Margaret Thatcher quando ela era primeira-ministra do Reino Unido.]

Será que as tendências do capitalismo de recorrer a extremas e crescentes desigualdades de rendimento, de fortuna e de influência política e cultural, requerem a capitulação e aceitação, por não haver alternativas?

Eu entendo por que os protagonistas de tal sistema nos queriam fazer acreditar em NHA. Mas por que outros deveriam?

Naturalmente existem alternativas; sempre existem. Cada sociedade escolhe —conscientemente ou não, democraticamente ou não— entre formas alternativas de organizar a produção e a distribuição dos bens e serviços, que possibilitam a vida individual e social.

A maioria das sociedades modernas optou por uma organização capitalista de produção. No capitalismo os proprietários privados constituem empresas e apontam seus diretores, que decidem o que, como e onde produzir, e o que fazer com o lucro líquido adquirido com a venda da produção.

Este contingente insignificante de pessoas toma todas as decisões econômicas pela maioria das pessoas que fazem a maior parte do trabalho produtivo real.

A maioria é obrigada a aceitar e viver com os resultados de todas as decisões executivas feitas pelos principais acionistas e os conselhos diretores por eles escolhidos. Estes últimos também escolhem seus próprios sucessores.

O capitalismo, portanto, requer e reproduz dentro das empresas uma organização de produção altamente antidemocrática. Os defensores de NHA insistem que não existe alternativa a tal sistema, ou se existir, que ela jamais poderia chegar perto em termos de renda, eficiência, ou processos de trabalho. A falsidade daquela afirmação é facilmente demonstrada. De fato, isso me foi mostrado há umas semanas, e eu gostaria de esboçá-lo aqui para vocês.

Em maio de 2012, tive a oportunidade de visitar a cidade de Arrasate-Mondragón na região basca da Espanha. É a sede da Corporação Mondragón (CM), uma impressionante e bem sucedida alternativa à organização capitalista de produção.

A CM é composta de várias empresas cooperativas agrupadas em quatro áreas: indústria, finanças, comércio varejista e educação.

Em cada empresa os sócios da cooperativa (em média 80–85% de todos os trabalhadores por empresa) são coletivamente os proprietários e dirigem a empresa. Por meio de uma assembleia geral anual, os trabalhadores escolhem e contratam um diretor geral, mantendo o poder de tomar todas as decisões fundamentais da empresa (o que, como e onde produzir, e o que fazer com a receita).

Visto que cada empresa é um componente da CM como um todo, seus sócios têm que se reunir com os sócios de todas as outras empresas e decidir quais serão as normas gerais que governam a CM e todas as empresas que a constituem. Resumindo, os sócios/trabalhadores da CM, coletivamente elegem, contratam e despedem os diretores, enquanto que nas empresas capitalistas ocorre o contrário. Uma das regras, adotadas cooperativa e democraticamente, governando a CM, limita o salário dos trabalhadores/sócios melhor pagos a 6½ vezes o salário dos trabalhadores de menos recurso.

Nada melhor que isto para mostrar dramaticamente as diferenças da organização alternativa capitalista de produção. (Nas empresas norte-americanas, os diretores executivos costumam ter salários até 400 vezes maior do que um trabalhador comum —uma taxa que aumentou vinte vezes desde 1965).

Levando em consideração que a CM conta com uns 85.000 sócios (segundo seu relatório anual de 2010), suas regras de equidade de remuneração contribuem para uma sociedade melhor, com muito maior igualdade de renda e fortuna. Mais de 43% dos sócios da CM são mulheres. A equidade de poder delas dos sócios masculinos influi de forma similar as relações de gênero na sociedade, diferente das empresas que funcionam do modo capitalista.

A CM exibe um compromisso com segurança no trabalho que eu raramente vi nas empresas capitalistas: está presente tanto no todo, quanto nas empresas cooperativas individuais. Os sócios da CM criaram um sistema para transportar os trabalhadores das empresas que necessitam menos àquelas que precisam de mais mão de obra, de um modo muito aberto, transparente e regulamentado, que inclui subsídio de viagem e de outras coisas para minimizar as dificuldades. Este sistema centrado na segurança transformou a vida dos trabalhadores, das suas famílias e das suas comunidades, também de maneira única.

A regra da CM que obriga todas suas empresas a obter seus insumos de produtores de melhor preço —mesmo se deixaria de lado produtores internos da corporação— mantiveram a CM à vanguarda das novas tecnologias.  Do mesmo modo, a decisão de utilizar uma porção dos ingressos líquidos de cada empresa-membro, como um fundo para pesquisa e desenvolvimento, financiou um desenvolvimento impressionante de novos produtos. O setor de pesquisa e desenvolvimento dentro da CM hoje emprega 800 pessoas com um orçamento de mais de 75 milhões de dólares. Em 2010, 21,4% das vendas industriais da CM foram de novos produtos e serviços que não existiam cinco anos antes.

Além disso, a CM fundou e expandiu a Universidade Mondragón; ela matriculou mais de 3.400 alunos no ano acadêmico 2009–2010, e seus programas de graduação conformam com as exigências das diretivas europeias para o ensino superior. O número total de estudantes matriculados foi de 9.282 em 2010.

Sendo a maior empresa na região basca, a CM está também entre as dez maiores empresas espanholas em termos de vendas e empregados. Muito além de apenas sobreviver desde sua fundação em 1956, a CM cresceu dramaticamente. Ao longo dos anos ela acrescentou um banco cooperativo, a Caja Laboral, com quase 25 bilhões de dólares em depósitos em 2010. E a CM expandiu internacionalmente, hoje operando mais de 77 negócios fora da Espanha. A CM se mostrou capaz de crescer e prosperar como uma alternativa ao —e concorrente do— modo capitalista de produção.

Durante minha visita, nos encontros casuais com os trabalhadores que responderam às minhas perguntas acerca de seu trabalho, poder e benefícios como sócios da cooperativa, notei uma familiaridade e senso de responsabilidade pela empresa como um todo, que eu costumo a associar unicamente com altos executivos e diretores de empresas capitalistas. A conversa fácil (incluindo discordâncias), por exemplo, entre os trabalhadores da linha de montagem e os supervisores dentro da fábrica de máquinas de lavar roupa, Fagor, que inspecionamos, foi igualmente notável.

Nosso anfitrião da CM nos lembrou duas vezes durante a visita que esta é uma empresa cooperativa com todo tipo de problema: “Não somos um paraíso, mas apenas uma família de empresas cooperativas tentando construir um jeito diferente de viver em torno de um jeito diferente de trabalhar.”

Não obstante, levando em consideração o desempenho atual do capitalismo espanhol —25% de desemprego, um sistema bancário falido, e austeridade imposta pelo governo (como se nem sequer para isto houvesse alternativa)— a CM parece um oásis acolhedor num deserto capitalista.

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